muito estranho porque tive uma luz do nada, de escrever a respeito de mim. mas não a respeito do que vem acontecendo, ou de como eu tenho me portado diante das situações escrotas que me aparecem, mas escrever sobre como eu sou, o que me tornei, e como me tornei o que eu sou. não falo só do que acaba de acontecer, ou do que vem acontecendo há dois anos, há dez, há quinze. mas sim de tudo. de como eu me percebia antes, e me percebo agora. não como uma experiência de auto-conhecimento apenas, mas especialmente para provar pra mim mesma que há algum tempo eu já não presto mais tanta atenção assim em mim. longe de saber se isso é ruim ou bom, mas com certeza admitindo que esta é uma grande mudança. muitas coisas que eu achava de mim mesma se perderam, muitas características que eu não poderia ter nascido sem, hoje esqueci, ou simplesmente se esvaeceram. mesmo que algumas pessoas perdurem ao meu redor, as relações andam diferentes. eu rabisco e rabisco com força a canetinha pra ver se consigo reforçar o tom do colorido, mas as coisas insistem em desbotar. e talvez isso seja apenas mais alguma coisa que aconteceu, e eu não pude evitar, e mal perceber.
me tornei um pessoa fechada. se com 14, 15 e 16 anos a depressão séria e sangrenta parecia o maior bicho papão do mundo, e não foi encarada com a serenidade que tenho hoje, ela pôde ser enfrentada with a little help from my friends. eu não tinha nenhum escrúpulo de gritar e pedir ajuda até que alguém pudesse me socorrer. abria o berreiro, rasgava a garganta, acusava o mundo, esperneava até que alguém pudesse me olhar - e me olhar de novo, até enxergar - e perceber o que de mal havia. mesmo que na época tudo fosse o maior drama na minha vida, e que eu sofresse todos os dias com a intensidade de mil sóis, sabia que sempre haveria aquele recurso pra me ajudar, e me agarrei a ele com toda a força. ter aquela facilidade para pedir ajuda - mesmo que ajuda infantil, de chorar junto, de se cortar junto - foi fundamental pra que eu soubesse que aquilo era parte de crescer. me acostumei a dor de um jeito tal que hoje ela já não me parece grandes coisas. a diferença é que me porto de outro jeito.
com certeza desaprendi a ser junto. em algum ponto do caminho - e eu nem sei direito onde -, eu fui me recusando a pedir ajuda, ou a admitir certas coisas para os outros. independente do quão amigo seja o interlocutor, minhas verdades sempre são particionadas. transparência deixou de ser uma característica minha para dar lugar a uma sombra que sempre paira quando converso com alguém. fingidora. não por mal, não por conscientemente ter deixado de acreditar ou de dar valor, mas simplesmente por um movimento natural de recolhimento, e de virada de olhos pra dentro. não sei bem quando, nem porquê, mas acabei procurando tanto me ocupar do que acontecia internamente em mim, que me perdi em algum lugar do meu estômago. as pessoas me passaram meio que despercebidas, e eu também acabei passando. as transformações foram acontecendo, eu fui me tornando, me virando, me mudando, e sequer percebi muito bem o terremoto e a implosão que ocorreu. displicência talvez, sonolência... naturalidade. nem eu nem os outros percebemos que as coisas mudaram. mas elas mudaram.
agora parece que uma antiga parte de mim - a que pedia socorro, gritava, arranhava e pedia - está em constante desalinho com uma nova parte que tenta se manter serena e reclusa diante de qualquer acontecimento drástico. às vezes quero voltar a ser adolescente, ter 15 anos, transformar qualquer dor em dor física, mas sei que não posso. faço o que posso para não me dispôr a situações que julgo inúteis de sofrimento. não que eu o recuse por inteiro, mas é como se agora, numa tentativa de equilíbrio, essas duas partes, a nova e a velha, tentassem costurar um novo estado de espírito, um novo modus operandi do meu próprio sistema nervoso, das minhas noites, da minha satisfação. sei que não sou a mesma, e ao mesmo tempo tenho muito medo do que posso vir a ser. quero vir a ser, e não ficar à deriva. quero mesmo caminhar.
no final acho que tudo veio a ser crescimento, como sempre é. e que finalmente agora estou dando ouvidos a isso e a sua importância. eu quero me livrar de tudo, é verdade. não quero remoer, nem expremer os dias passados atrás de respostas que nem me importam mais. mas especialmente eu quero poder levantar. recuperar o ar. ter certeza de que foi só mais uma etapa, e que mesmo que os tijolos estejam todos espalhados, logo logo poderão se rejuntar. que a vida seja um bom cimento.